quinta-feira, 12 de julho de 2012

OS NOSSOS DEMÓNIOS


Por: Francisco Salgueiro


As paredes brancas do quarto estavam a implodir os meus pensamentos. Destruíam-nos não deixando que formassem frases. Apenas flashes. Apenas palavras soltas. Letras sem sentido.

Olhava para a parede há mais de meia hora, num estado de pensamento comatoso.

Eram cinco da manha e sabia que estar a forçar o sono só iria fazer que ele ficasse com mais raiva de mim e não me fizesse a vontade.

Quantas pessoas estariam exactamente como eu? Com vontade de mudar tudo, mas sem força para fazer nada. Não sei qual o nome clínico para isso mas há de certeza.

As cinco da manha são a pior hora da noite. Não há ninguém para ligarmos sem haver riscos de lhes causarmos um ataque cardíaco, e ao mesmo tempo é a hora em que somos confrontados com os nossos demónios. Pelo que me percebi ao longo da vida eles dormem o dia todo e gostam de acordar a essa hora. Preguiçosos.

E é aí que se inicia uma guerra. Nós contra nós. Nós somos os nossos demónios. Não há maior medo na nossa vida do que o que o nosso inconsciente produz.

Nessa noite não estava a conseguir lutar contra ele. Sabia que se tentasse ia ser miseravelmente dilacerado.
Meti-me no carro. Liguei a ignição e fiquei a pensar onde iria. As hipóteses não eram muitas. Era apenas uma. Eu sabia onde queria ir, mas nem sempre onde queremos ir é onde devemos ir.

Não há pior luta do que a que existe entre o querer e o dever. São irmãos que não se dão muito bem e quem acaba por ser prejudicado somos nós. Se fazemos o que queremos muitas vezes o resultado é negativo. Se fazemos o que devemos a frustração castra a nossa satisfação.

Dirigi me para o local oposto ao que queria ir e arranquei. De que me serviria olhar da rua para uma janela e pensar em quem lá estava a dormir?

Dizem que tecnicamente estamos sempre a pensar. É possível que isso seja verdade, mas durante aqueles quilómetros em que aos poucos a noite perdia a  luta com o dia não me lembro nada do que pensei. A cabeça doía-me como se o meu cérebro tivesse sido aspirado e tivessem restado um ou dois neurónios, que em conjunto o máximo que conseguiam fazer era somar 1+1 e mesmo assim diriam que o resultado era três.

A caminho do sul estava na estrada junto à costa alentejana. Do meu lado direito via o mar. A cada minuto ia mudando de cor. Encontrava-me perto da Carrapateira. Parei o carro em cima de uma falésia e fiquei a ver o dia nascer. Só aí voltei a sentir capacidade de controlar os demónios. O sol apareceu e percebi que os nossos demónios são como os vampiros. Atacam quando estamos mais vulneráveis. Durante a noite. Às cinco da manhã.

Com a luz do sol eles começam a ser queimados.

Aos poucos senti-me em paz. O querer e o dever tinham ido dormir. Estava longe de onde queria. Às vezes temos de nos afastar do que queremos, porque apenas nos faz mal.

Fiquei a ver o dia mudar de cor. Inclinei o banco para trás e senti uma sensação de paz a invadir-me.
Era apenas isto que precisava. Adormecer.


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