terça-feira, 17 de julho de 2012

Todos temos o amor da nossa vida e tu foste o meu


por: Francisco Salgueiro

Pego numa folha A4 e começo a escrever. No iPod oiço “When Love Breaks Down” dos Prefab Sprout. Não oiço, sei que entra nos meus ouvidos, mas não se integra em mim.

“O amor precisa de circunstâncias ou simplesmente acontece?“

Páro de escrever e pego num álbum de fotografias que está dentro da minha mala. Na capa está escrito Rita. Sou eu.
Sei de cor a ordem das fotografias. Vi-as milhares de vezes. Sonhei com elas milhões de vezes.
Na primeira fotografia tínhamos 3 anos, na última 7. João. Era o nome dele.

“Sabes que sempre fui muito céptica em relação ao amor. Nós raparigas fomos educadas para acreditar que ao longo da nossa vida apenas íamos ter um único amor. O tal que seria o nosso príncipe.

Príncipes em cavalos. Princesas que acordam com um beijo. Sapatos do número certo. Anões trabalhadores. Ria-me por dentro quando via que alguém realmente acreditava nas histórias criadas pelo Walt Disney. Como se fosse possível que elas acontecessem na vida real.

Mas hoje... dez anos depois de tudo ter acabado... tenho a certeza que foste o homem da minha vida. Nunca nos chegámos a despedir. Nunca te pude abraçar pela última vez.”

Os meus olhos são invadidos por uma onda que não me deixa ver. Vêm à memória todas as outras fotografias que não foram tiradas mas que as registei em mim.

“Estou em Nova Iorque porque foi aqui que tudo começou... Que recomeçou. Lembro-me dele desde que me lembro de mim. Sempre fez parte da minha vida. Fomos os melhores amigos. Brincávamos... subíamos às árvores, atirávamos balões às pessoas que passavam na rua... era o irmão que nunca tive... o meu melhor amigo... o meu primeiro namorado.

Até que aos 15 anos os pais dele emigraram. Nova Iorque. Diziam que era o centro do mundo. Prédios grandes. Estátuas enormes. Museus. Ele não pôde escolher. Foi. E subitamente ficou um vazio dentro de mim.

Não sabia que esse sentimento existia. O vazio. Querer ver alguém e não puder. Chorei muito. Queria chorar ainda mais. Queria chorar até morrer. A minha vida sem ele não fazia sentido. Mas teve que fazer. Todos os meses que passavam ia fazendo mais sentido. Aos poucos ele era apenas uma lembrança da minha infância e da minha adolescência. Trocámos algumas cartas. Muitas ao princípio. Foram sendo cada vez menos. Falar ao telefone, apenas nos anos. Era caro. E assim fui fazendo a minha vida. E ele a dele.

A minha vida foi dedicada à ginástica. Só nesses momentos me conseguia esquecer que ele e eu nunca mais estaríamos juntos. As coisas não são como agora. Não havia Skype e as viagens eram caras.

Os pais dele morreram num acidente de carro. Foi a última vez que tive notícias dele. Tentei ligar-lhe mas o número estava sempre desligado. Deve ter mudado de casa, deve ter ido morar com outras pessoas. O nosso cordão umbilical tinha sido cortado para sempre.

Até que... num torneio de ginástica vim a Nova Iorque. Sonhei. Sonhei muito. Imaginei que mal chegasse ao aeroporto ele ia estar à minha espera. Abraçar-nos-íamos com tanta força que nos transformaríamos numa só pessoa. Aterrei. Olhei à minha volta e nada. Como podia ele saber que eu estava ali? Fingi ter torcido o tornozelo apenas para não ir aos treinos e ao torneio e andar por Nova Iorque. Quem sabe se não esbarraria com ele? E isso aconteceu mesmo.

Pelos vistos os milagres acontecem. E dessa vez eu era a contemplada. Ele trabalhava em Wall Street. Tinha ido comer a Battery Park. Reconheci-o de imediato. Não falámos. Não era preciso. Apenas queríamos a companhia um do outro. O nosso silêncio era a nossa companhia. Embarcámos num ferry e estivemos a passear. Durante horas.

Não hesitei. Vim morar para Nova Iorque. Não podia desperdiçar o milagre que me tinham dado. Era suposto estarmos juntos para sempre. Não podia desafiar o destino.

E foi maravilhoso. Tudo aquilo que eu sabia que iria ser.

Durante 6 anos.

Mas porque é que as coisas não funcionaram? Era a pergunta que todas as pessoas me faziam. Eu respondia-lhes sempre que elas tinham funcionado. E bem. Durante 6 anos. Mas chegou uma altura em que deixámos de ser felizes juntos. Sem mágoas. Sem rancor. Separámo-nos

Voltei para Portugal. Mas não voltei sozinha. Voltei acompanhada. Contigo.

É um cliché dizer-se que o nascimento de um filho é o momento mais importante da vida de uma mulher. Mas é. Quando ouvi a tua voz pela primeira vez apaixonei-me de imediato.

Dediquei todo o meu tempo a cuidar de ti. Talvez tenha querido que nunca sentisses o que eu senti quando o teu pai foi morar para Nova Iorque. Queria dar-te segurança. Ou talvez eu queria dar segurança a mim mesma e nunca mais voltar a sentir aquele vazio. 

Talvez tenha sido a minha dedicação exclusiva a ti que fez com que a relação com o teu pai tivesse acabado. Talvez...

Voltámos os dois para Portugal. O teu pai ficou em Nova Iorque. Todos os anos vinhas cá para visitá-lo no verão. Sempre que te via a dizer-me adeus no aeroporto voltava a sentir o vazio. Mas desta vez era ainda maior do que o que tinha sentido com a partida do teu pai. Tu regressavas sempre feliz e isso era o que realmente me importava.

Até que naquela manhã o teu pai teve que ir ao escritório. E levou-te com ele. Ele sabia que eu não queria que ele te deixasse com outras pessoas. Respeitou a minha vontade e levou-te.

Quando o telefone tocou ouvi-te a chorar. Não percebi o que se estava a passar. Havia muito barulho de fundo. A chamada foi-se a baixo. Só houve tempo para o teu pai dizer-me "desculpa".

Eu é que tenho que te pedir desculpa. Nunca tive coragem de aqui vir ao Ground Zero. Passaram dez anos sobre o ataque às Torres Gémeas. Hoje terias 16 anos.

Todos nós temos o amor da nossa vida. E tu foste o meu. Nunca foste encontrado. Mas sei que estás aqui a ver-me. Quero entregar-te esta carta para que saibas um pouco mais sobre nós. Vou deixá-la esvoaçar para que a apanhes. Tenho muitas saudades tuas. Amo-te.”
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