quarta-feira, 27 de agosto de 2008

UPDATE: FREDDY KRUEGER NO MEU QUARTO


Depois de ter escrito o post de ontem, já não aguentava mais ouvir o duo pai e filha em canções de cariz sexualmente quase explícito, e transformei-me num gladiador. Decidi ir à Associação Recreativa Filarmónica Popular e ver de perto de onde vinha o som que me acordou.

Peguei no meu sobrinho de 3 anos e lá fomos. Se eu fosse ficar traumatizado, pelo menos não seria o único.

Logo à entrada da Associação tive dúvidas se não teria caído num buraco negro e ido parar a uma reserva índia nos Estados Unidos. 89% dos homens tinha a cara completamente vermelha. Como aqui não há praia estava fora de questão estarem com um escaldão. Pelo ar não eram bifas por isso só havia uma razão: o álcool. Naquele momento fui invadido pelo espírito Michael Jackson e pensei que jeito me dava ter ali uma máscara, para mim e para o meu sobrinho.
O bafo a álcool expirado pela maior parte dos homens daria para nos pôr em coma alcoólico se inspirássemos muito fundo.

O meu sobrinho agarrou-me logo na perna, porque nunca deve ter visto seres daqueles, a não ser em pesadelos. Peguei-o ao colo e entrámos na Associação

De imediato um senhor veio ter connosco. A cara dele era de um vermelho radioactivo, e tenho a certeza que ele achou que eu e o meu sobrinho éramos apenas uma pessoa. Nem olhou para mim, esticou-lhe a mão, disse-lhe boa tarde e seguiu em frente.

Do lado esquerdo junto a um órgão Yamaha vi o electricista, o Júlio Iglesias local, com a sua filha ao lado, já cansada de estar a cantar músicas erótico-incestuosas há mais de 6 horas.

À nossa frente as mulheres dançavam com mulheres e os solteiros ficavam a olhar para elas, enquanto as moscas saltitavam de prato de cozido à portuguesa em prato de cozido à portuguesa.

Um outro senhor chegou ao pé de nós e disse-nos “que pena, chegaram mesmo no fim”. Não sei quem é, nem porque tinha pena que não tivéssemos lá estado desde o início.

Nesse momento o Sr. Ascensão vira-se para a plateia cada vez mais pequena, porque o álcool ia fazendo os seus danos colaterais, e pediu a alguém do público para cantar.

Ninguém se ofereceu. Ele não se deixou abater e quando ia começar a tocar a última música um senhor aproximou-se: “Sr. Vítor... o nosso voluntário” – disse o senhor Ascensão. Os 15 espectadores entram em êxtase como se tivessem ouvido o nome “José Mourinho a cantar A Cabritinha.”

Emocionado, o Sr. Vítor disse: “vou cantar um fado dedicado aos combatentes, aos que se encontram aqui e aos que não se encontram.” E arrancou numa música tão triste, que as lágrimas começaram a escorrer. De todos os presentes. Não eram lágrimas normais. Mas sim lágrimas de álcool. E assim, à minha frente foi descoberta a cura para a bebedeira. Chorar. O álcool sai pelas lágrimas e as caras deixaram de ficar vermelho radioactivo.

Milagre! Milagre! Quis dizer, mas não tive coragem. Também eu estava emocionado. E aí reencontrei-me com Deus e pedi-lhe perdão pela quantidade de palavrões que passaram pela minha cabeça nessa manhã quando fui acordado ao som da música da Celine Dion, e em seguida do Twin Peaks em versão acordeão pimba.

Ele perdoou-me e disse: “Se todos fossem como tu, não haveria aquecimento global. Que Alá esteja contigo.”


PS Comentários – Anónimo: nos últimos dias a minha cultura musical portuguesa aumentou tanto, que creio ter ficado com lesões permanentes. Mariana: É ela! Está aqui! Existe mesmo! E já leu o livro! Roam-se de inveja ou então vão a casa dela e roubem-lhe o manuscrito. Su: Olá vizinha. Vou dar um grito a ver se o eco chega aí: olaréhihu... hihu… hu... u. Dora: Obrigado. Espero vê-la nas bancadas com um poster gigante de mim, abraçado a uma lula. O seu Google vai deixar de funcionar. Sofia: derreti-me com a última frase que escreveu. Neste momento sou uma gosma a escorrer pelas escadas. O lado positivo: pelo menos já não caio.

Enviar um comentário