segunda-feira, 9 de março de 2009

AS ORIGENS DA PRAIA DA SAUDADE - PARTE 3

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(continuação do post de domingo)


As origens de A PRAIA DA SAUDADE - parte 3

Mais ou menos na mesma altura em que comecei a ter longas conversas com o meu pai sobre os anos da ditadura, e as vivências dele e do meu avô, fui até à Torre do Tombo. Tentava encontrar algum material secreto da Pide sobre o meu pai e sobre o meu avô, que pudessem complementar os relatos que ele me fazia.

Se durante a escrita do Amei-te em Copacabana me tivessem dito que iria passar horas e mais horas e ainda mais horas na Torre do Tombo a fazer pesquisas eu cairia para o lado a rir-me tanto que ficaria com cãibras.

Mas o livro estava a tomar conta de mim (uau… que belo cliché) e sentia que queria enriquecê-lo o melhor possível (isto hoje está bonito, com tantos clichés). Só que tentar obter documentos da Pide na Torre do Tombo é mais complicado do que conseguir uma audiência com o Obama.

Para além de ter preenchido milhares de papeis com requisições para justificar o porquê do meu interesse naquelas duas pessoas, disseram "se tivermos alguma coisa sobre estas pessoas só saberemos daqui a uns 3 ou 4 meses." "Três ou quatro meses??!" Berrei para o senhor da sala de leitura da Torre do Tombo. Não berrei mas tive vontade, porque senti-me intimidado. Sempre que respirava mais profundamente alguém na sala dizia "shhhh." Se tivesse berrado "Três ou quatro meses??!", teria apanhado com um livro na cabeça e ficado com amnésia.

Resignei-me e fui-me embora, sabendo que o livro iria estar pronto muito antes desse tempo. A informação que o meu pai estava a dar-me não podia arrefecer dentro da minha cabeça.

Durante algumas semanas, à noite, fui para casa do meu pai ouvi-lo falar sobre, sobretudo, os anos 60. Ao princípio nem eu nem ele sabíamos bem por onde começar. Apesar de ter o esqueleto do livro, ele podia ser colorido de muitas maneiras.

Tínhamos de começar de algum lado e arrancámos com a experiência dele nessa altura: as manifestações que tinha participado contra o regime, como tinha sido viver com uma pessoa que lutava activamente pela liberdade mas que era preso ou tinha livros apreendidos simplesmente porque Salazar achava que esses livros eram más influências para os portugueses, a experiência na guerra em Angola, e como apesar de ter sido um dos melhores alunos de medicina lhe tinham proibido de exercer medicina em Santa Maria porque diziam que não era uma pessoa de confiança para o regime.

Foi uma sensação estranha. Senti que ele dizia muitas coisas que não verbalizava há décadas. Senti-me a vasculhar a intimidade do meu pai

(to be continued)


PS Comentários: Joana: muitos parabéns pelo 17 (glad I could help); CC- claro que o novo livro também poderá ser comprado na loja e com autógrafo; quanto ao meu endereço no hi5 não sei, faça um search e eu apareço duas vezes, ambas verdadeiras; Dora: todos os dias mais um bocadinho do texto; Escrava e Verida: Abril está quase.
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